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Ensaio sobre cultura e disciplina de trabalho


Confesso que sou fã da cultura e disciplina de certos povos. Como quem me segue no Facebook e Twitter sabe, fui há pouco tempo à Croácia e deparei-me com um povo que, no que se refere ao trabalho, é muito disciplinado e concentrado. Diga-se de passagem que a guerra pela independência que lhes devastou o país terminou há apenas 15 anos e hoje não se encontra nem um buraco de bala numa parede. As cidades estão totalmente reconstruídas e o país cresce a olhos vistos.

Ora, achei estes factos todos interessantes, até que perguntei ao guia como era a vida laboral por lá e foi-me dito que o horário deles é das 09h às 16h no Inverno e das 08h às 15h no Verão, com uma pequena pausa para almoço. No Verão saem mais cedo porque faz calor e assim ficam com mais tempo para aproveitar o dia. Além disso, com este horário, ficam com tempo para procurar outros empregos ou part-times.

Claro que as coisas não são assim tão lineares, o país todo não pára de trabalhar às 15h ou às 16h, existem hotéis, bares, serviços, bombas de gasolinas, etc., mas o horário estabelecido é este e achei a lógica da coisa fantástica

Isto fez-me lembrar algo que um familiar meu me havia contado há uns tempos atrás quando trabalhou no Kosovo e na Bósnia. Ele relacionou-se profissionalmente com várias pessoas de diversas nacionalidades e salientou a disciplina no trabalho dos Suecos e Alemães, sendo que também praticam horários semelhantes.

Claro que dei por mim a comparar esta filosofia de trabalho com a nossa cultura laboral e confesso que… acho que me dava melhor na Croácia


Sinceramente, acho que somos demasiado latinos no que se refere ao trabalho. Os nossos horários são alongados demais. A regra é das 09h00 às 12h30 e depois das 14h às 18h.

Para começar, para quê 01h30 de almoço? Que diabo! É mesmo chato, porque 01h30 de almoço nem dá para comer qualquer coisa a despachar no serviço, porque depois ficamos com o resto do tempo de almoço sem nada para fazer, nem dá para ir a casa nas calmas almoçar porque isso implica ter de ir buscar o carro e conduzir e cozinhar e lavar a loiça e arrumar a cozinha e tudo e tudo e damos por nós e está na hora de voltar e conduzir e apanhar trânsito e procurar estacionamento e caminhar para o serviço e… pronto, já perceberam.

Falo por mim, mas preferia ter meia-hora de pausa para comer e sair 01h mais cedo do que ter 01h30 de almoço… Já para não falar que 01h30 é uma quebra muito grande no ritmo de trabalho e sinto que custa muito mais retomar o ritmo que tinha de manhã depois de 01h30 parado do que após uma pausa de meia-hora.

E depois o horário dos portugueses é muito alongado, ocupa o dia todo a uma pessoa. Saímos do serviço e já são 18h ou 18h30. Não dá para fazer mais nada, as lojas já estão fechadas, os serviços encerrados, os bancos nem se fala, no Inverno, inclusive, já é de noite, part-times é complicado porque quase não há tempo, chegamos a casa praticamente às 19h30 ou às 20h e ficamos apenas com tempo de despachar as coisas de casa e pouco mais. Isto se não decidirmos andar num ginásio ou algo assim, aí o tempo disponível reduz exponencialmente.

Além disso, o facto de os dias serem muito longos quase que obrigam a um arrastamento do trabalho entre mãos. O meu familiar contava-me que, nas reuniões, os alemães entravam, abreviavam as cordialidades, despachavam o serviço e saíam. A reunião ficava despachada em 20 minutos. Os portugueses, espanhóis, italianos, entram, passam os primeiros 15 minutos a confraternizar, trabalham durante 40 minutos porque pelo caminho a conversa toma outros rumos, e no fim passam mais 15 minutos a conversar antes de se despedirem. A mesma reunião dura 70 minutos.

Quem costuma ir a reuniões, diga se não é assim.

O próprio clima afecta a produtividade e os Croatas perceberam isso. No Verão preferem entrar mais cedo e sair às 15h porque faz calor. Nós por cá, com os nossos 90 e 100% de humidade, andamo-nos a arrastar até às 18h! Então não fazia mais sentido aproveitar a manhã e produzir concentradamente até às 15h, do que, depois de 01h30 de um almoço pesado, irmos para um escritório com 94% de humidade no ar e o sol a brilhar no céu e ficarmos lá fechados até às 18h a arrastar o trabalho porque estamos meio-mortos?

Há quem tente aplicar esta filosofia de trabalho no seu dia-a-dia, mas a nossa própria cultura parece rebelar-se contra estas ideias. Vivemos numa sociedade onde grande parte das chefias dá mais valor a alguém que fica no serviço até às 19h ou às 20h, "porque é uma pessoa que fica sempre além da hora", do que à pessoa que fez o que tinha a fazer e sai à hora certa. Digam se não é verdade, até os colegas de trabalho olham de soslaio para a pessoa que sai mesmo mal dá o “toque de saída”.


Para acabar, que isto já vai longo, sou da opinião que:

- precisamos de mudar a nossa mentalidade no que se refere ao trabalho.

- Temos de ser mais concentrados, mais disciplinados, e quando é para trabalhar é para trabalhar.

- Passar mais tempo no escritório não é o mesmo que trabalhar mais.

- Fazer uma pausa para fumar de 15 em 15 minutos e ir tomar café e conversar nas reuniões para depois gritar “Ai tanto serviço” e sair às 20h porque o trabalho está atrasado não tem mais valor do que trabalhar de forma concentrada, fazer o que se tem para fazer, e sair à hora certa.

- Obrigar as pessoas a entrar quando o sol nasce e sair quando está de noite não significa mais produtividade.

- Para finalizar, acredito que seriamos mais felizes enquanto povo se passássemos menos tempo no serviço e mais tempo com a nossa família ou a fazer as coisas que gostamos. 

E, como toda a gente sabe, uma pessoa feliz produz mais

Um bom fim-de-semana para as senhoras e senhores,

Com os melhores cumprimentos,
Hélder Medeiros